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A vida e o sofá de Hebe

TV/HEBE

Por Luiz Carlos Merten

30 de Julho de 2020 as 07:02

Marco Ricca cumpre o isolamento em casa, no Rio, "com esses privilégios que a gente tem por ter emprego, salário e poder se dedicar a manter a segurança de nossos entes queridos".

Tem lido muito, formulado projetos.

Gostaria de voltar ao teatro, de dirigir outro filme.

Quando a pandemia colocou o Brasil dentro de casa, ele se preparava para iniciar as gravações da próxima novela das 9, que vai substituir a atualmente parada Amor de Mãe.

É um texto de Lícia Manzo.

"A Lícia é uma autora na vertente do Manoel Carlos.

Põe foco nos relacionamentos, na espessura dos personagens encravados no cotidiano.

Acho que vai ser bem bacana, quando voltarmos a gravar, mas a decisão é da Globo.

" Em Seu Lugar já foi adiada para 2021.

Marcará o retorno de Maurício Farias à direção de novelas e Ricca formará dupla com Andréa Beltrão.

Hein? Farias/Andréa/Ricca - o trio é o mesmo de Hebe, lançado como filme nos cinemas no ano passado, e que agora ganha o formato de série na TV, a partir desta quinta, 30.

Na sequência da reprise da novela Fina Estampa, o público poderá assistir ao primeiro dos dez capítulos de Hebe.

Hebe Camargo! Uma cantora que virou estrela como apresentadora e se tornou referência por décadas nos lares dos brasileiros.

Hebe e seu sofá.

Hebe que considerava seus convidados verdadeiras estrelas do cotidiano e tinha aquela mania de chamar todo mundo de gracinha.

"Como convidado, estive algumas vezes naquele sofá.

Hebe era exuberante, magnética, tinha brilho próprio, mas a gente ficava com o pé atrás, porque a Hebe tinha aquela ligação com o malufismo.

No final da vida, ela revisou atitudes e acho que virou uma referência importante para muitas mulheres pela forma corajosa como enfrentou a doença.

" Ricca faz o marido.

"Lélio representava essa São Paulo arrogante do poder e do dinheiro, das noitadas da Augusta.

Cheguei a conhecê-lo, superficialmente, e era um tipo grosseiro.

Parecia incapaz de uma gentileza.

Era ligado ao (Paulo) Maluf.

Como político, Maluf representava tudo aquilo que a gente desprezava.

" Desde sua primeira apresentação, - no Festival de Gramado, no ano passado - , o filme foi muito criticado.

O roteiro de Carolina Kotscho foca a trama nos anos 1980, quando Hebe já era apresentadora estrela e desafiava a censura do regime militar pela liberalidade com que abordava as questões de gênero no programa.

Carolina foi acusada de falsificar a realidade para mostrar uma Hebe guerreira da democracia, quando ela, por sua ligação pessoal como o malufismo, seria o oposto.

Em Gramado, a roteirista chegou a provocar: "Não tem uma frase (da Hebe) que seja invenção minha".

Ricca reflete: "Acho que ela podia ter contradições, como todo mundo, mas Hebe foi importante ao confrontar o Brasil da classe média com formas comportamentais que não eram as da tradicional família brasileira".

"Acho que o filme foi uma surpresa porque mostrou, duplamente, uma Hebe pouco conhecida.

A que brigava nos bastidores da televisão e a que vivia uma situação abusiva em casa, com o marido.

Esse Lélio era um horror.

Machista, homofóbico, violento.

Como sempre, interpretei o personagem sem julgar.

E o que descobri é que todo mundo que conviveu com eles fala numa relação possessiva, de amor e ódio.

O inferno do ciúme.

Como personagem, é forte, desafiador.

Como ser humano, é desprezível", diz Ricca.

Andréa? "Ah! Andréa é uma das maiores e mais completas atrizes desse País.

Possui um registro amplo que vai do cômico ao trágico.

Ela percorre todas as emoções.

E faz com leveza - trabalhar com ela é uma delícia.

Que venha logo a nossa novela.

" A série, ao contrário do recorte do filme, é mais ampla.

Acompanha Hebe da juventude à morte.

Quem faz a estrela quando jovem é a talentosa Valentina Herszage.

As informações são do jornal O Estado de S.

Paulo.